Antropologia da Tecnologia


A dublagem cômoda

tierro

 

 

Diante do botãozinho da TV, que faz com que a dublagem desapareça e eu tenha que enfrentar a realidade cultural sem maquiagem, esse botãozinho eu não consigo apertar!!! , ... , e mais, é necessário que eu nem mesmo saiba o que significa a tecla SAP, para não ficar com culpa em meu coração!!! Com pena dos anos que freqüentei o banco escolar e estudei inglês para nada! A funcionalidade do conteúdo escolar, voltado para uma certificação, para uma titulação, para pegar um diploma que me abrirá portas e janelas profissionais, impede que eu perceba que muito mais do que isso é o sentido, a transformação, as mudanças existenciais que a educação pode promover. Mais uma vez pensemos Paulo Freire quando ele faz da esperança e do conhecimento. Podemos hierarquizar os conhecimentos não em termos de sua funcionalidade dentro do sistema, mas também em termos da quantidade de esperança que ele pode nos trazer, na quantidade de possibilidades de humanização que podemos obter estudando, ensinando, aprendendo. A esperança de que o ser humano possa se refazer naquilo que ele tem falhado tanto: sua capacidade de amar, de se solidarizar, de se plenificar, de se organizar, de construir ao seu redor relações emocionais e culturais marcadas pelo respeito à vida e ao direito de todos. Tudo isso o diploma, o título, não podem garantir.

 

Estudamos ciência, mas não despertamos a curiosidade de continuar a ler sobre o corpo humano, sobre psicologia, sobre nossas emoções, sobre as dimensões de nossas personalidades. O estudo de ciência não abre essa porta para que prossigamos. Geralmente temos a aflição de terminar logo aquela disciplina e juramos que nunca mais abriremos um livro de ciências na vida, ou outro que fale e dê continuidade a estas questões. Estudamos história mas não prosseguimos aprofundando as questões filosóficas, sociológicas, antropológicas. Não construímos a sede de saber por que as coisas são como são e como podemos intervir de maneira mais eficiente. Ao terminar o curso de história temos aflição de fechar o livro e viver a vida real, deixar as abstrações. Nem percebemos que todas as outras coisas que não consideramos abstrações são igualmente abstratas. O mundo ao nosso redor é o mundo de sentidos, e esses sentidos são mutáveis. Estudar história não me leva a querer continuar lendo, aprofundando. Continuo precisando de tradutores, precisando que alguém decodifique as informações, que o jornal nacional me diga o que esta acontecendo ao meu redor. Estudamos geografia, estudamos matemática, estudamos para passar em provas, em exames, em concursos. E só. Entretanto, sem que percebamos, as estruturas de produção, as estruturas políticas, vão deixando de ser infantis e ingênuas, vão se complexificando. Nem mesmo as ferramentas de compreensão da realidade que usávamos no passado, servem mais. O Marxismo já não dá conta de lançar luzes no fundo do poço, por que os empresários, os religiosos, os comerciantes, toda a forma de produção e controle social, nós, todos juntos, estamos cavando cada vez mais fundo em nossa dependência do sistema. Torna-se cada vez mais difícil falar em mudanças. Nem mesmo a chegada de um partido de esquerda brasileiro ao poder, um partido de bases populares, um partido que nos trazia esperanças como o PT, têm significado as mudanças que tanto precisamos.

 

Outra vez eu estou segurando o controle da TV e olhando para o botão da tecla SAP. Agora tenho medo de ouvir a verdadeira voz do que está acontecendo. Prefiro a tradução em minha língua, prefiro a simplificação. Meu povo brasileiro se acostumou a viver na senzala e necessita de tradutores que corram até a casa grande para trazer as notícias do patrão, os desejos do patrão. E então, continuamos.

 

O conhecimento escolar pode nos proporcionar uma nova dimensão para que nossas vidas normais e tediosas se ampliem. Que sabe se educadores, professores, pedagogos, estudantes, fizerem um esforço de vencer a tendência à funcionalidade da educação escolar em nome da efetividade, da apropriação macunaímica do saber, possamos abrir os caminhos. E então o milagre da tecla SAP deixe de ser apenas um luxo para aqueles bem nutridos filhos da burguesia que com saudades de Londres gostam de exercitar seu inglês? Quem sabe o botãozinho possa ser acionado mais vezes e então possamos enxergar e ouvir outros mundos?

 

 



Escrito por Tierro às 16h34
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A efetividade do conhecimento escolar

David Tierro

 

A tecla SAP das televisões modernas nos permite algumas reflexões interessantes. E um botãozinho que faz com que o filme ou desenho, em seu formato original, seja enviado para sua tv ao invés da cópia dublada. E um botãozinho que muito poucas pessoas fazem uso, por que a maioria dos filmes são em inglês e o nosso inglês, assim como o da maioria da população brasileira, é muito mal, para não dizer inexistente. Somos da geração que não saiu do verbo to be, talvez seja mais honesto dizer que nem entramos. Por que to be é SER, e o nosso inglês nem mesmo é. Nesse momento a tecla SAP se torna um problema filosófico para educadores e educandos. A questão para nós é: o ensino que construímos é ou não é pra se viver a partir dele? Todo o inglês que estudamos em nossa formação não nos torna capazes de assentar diante da TV e aperta a tecla SAP para entrar em outra cultura e compreendê-la.

 

Paulo Freire fala na pedagogia do oprimido da necessidade que o ser humano tem de significar sua vida para fazer e refazê-la, de dar novos sentidos, e principalmente de abandonar os sentidos que os dominantes dão para as vidas dos dominados, no caso nós, a maioria. Estudar é uma forma muito interessante de acrescentar novos elementos às nossas vidas, para fazê-las e refazê-las. Entretanto temos no Brasil um grande problema com nossas instituições de ensino-aprendizado. Sua efetividade. O conhecimento escolar é útil para responder às necessidades de sentido que nossas vidas possuem?

 

Quando paramos para pensar na utilidade do conhecimento escolar esbarramos imediatamente com uma dimensão ultravalorizada desse conhecimento; a sua funcionalidade. A certificação, a titulação, os processos de qualificação em que estamos inseridos fazem com que o sentido do estudo, do ensino, do aprendizado, tenha uma fundamentação prática, ligada com as relações profissionais, produtivas, informais. Ai eu volto à tecla SAP. O inglês que aprendo na escola, e que para 90 por cento da população estudantil brasileira será o único contato com essa língua estrangeira que teremos, a língua dos dominantes, esse inglês escolar me ajuda muito a saber a tradução da expressão hot-dog, e nada mais (talvez também a pouco conhecida the books on the table). Temos uma relação funcional com o inglês, chamado de inglês instrumental. O próprio nome instrumental já é uma canalhice. Não gera possibilidade de relação, de compreensão. Legitima uma opressão cultural. Continuamos a deixar as opiniões dos tradutores ser a opinião mais certa (tradutores aqui não são apenas os dubladores. Estes também. Quantos professores não são na verdade dubladores?)



Escrito por Tierro às 16h32
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Escrito por Tierro às 16h10
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